segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Olhos

Acordei com dor de cabeça
sentindo aspereza naquilo que tocava.
doí-me nas entranhas.
Fiz um pequeno alongamento,
Alimentei minha mente com bons pensamentos
e levantei-me.
No quarto ainda escuro.
procuro apoio e ao alcançar o interruptor,
acendo a luz.

Uma luz absurda entra no quarto,
violentamente invade meus olhos,
inunda minha mente.
fico segundos sem conseguir ver nada,
nada a minha frente.

aos poucos, consigo abrir os olhos -
fico atônito: é tanta luz que eu consigo ver longe
do palmo a minha frente a uma agulha no topo dos montes.
inacreditável!

saio a rua.
observo tudo atentamente com minha nova ultra visão
vejo o homem que anda ligeiro  com um dor imensa em seu peito
vejo a mulher sofrendo a dor da perda do filho calada sorridente
vejo o menino com fome, doendo-se pelo meio pão que dividirá com seu irmão esquelético.
vejo assustado,
mas vejo.
desejos perdidos,
felicidades fugazes,
rapazes e moças,
fardos e esperanças,
a dor dos adultos e das crianças.
a cada visão, minha cabeça mais dói

fujo desesperado para um beco.
lá está tudo escuro.
a dor cessa .
quanto mais meus olhos se fecham
menos dor sinto.

penso, repenso, penso.

com um só golpe, furo meus olhos,
o sangue jorra mas nada dói,
minha cabeça que doía não dói mais.
volto e deito-me no meu quarto escuro...

sábado, 17 de agosto de 2019

A Grande Construção de Mim

Tijolos colocados um a um
Concreto, vigas para o teto.
Meço de uma forma cirúrgica
cada azulejo, cada ladrilho.
Vergalhões instalados, os sacos do cimento mais forte.

Furei um poço,
Tirei a água mais clara.
Armei o concreto e matei a sede.
O suor pingando, sol queimando
eu construindo.

E ela do outro lado olhando.
Serena…
Eu a via e a desejava.
Ela me olhava, acenava
enquanto eu sonhava com ela na minha sala,
na minha cama,
na minha casa.

O ultimo azulejo foi assentado.
Sentei-me a varanda
respirei…
E ela lá…
Olhava-me com ternura - olhos cintilantes.
A chamei.

Ela se levantou, veio em minha direção,
Admirou minha construção e sacou sua marreta.

Inebriado, não a percebi.
Olhava extasiado…
ela passeava pela construção como uma pluma,
me sorria, prometia felicidades e batia.
A cada azulejo arrancado, a cada buraco nas paredes,
meu coração embriagado, sorria.

Cada parede construída,
cada lembrança,
cada suor…
Chorei noites sem enxergar.
Nada sobrou…
Nada…

após tudo destruído,
ela sacou um lenço,
enxugou minhas lágrimas, sorriu e disse.
-Meu Amor, reconstrua que volto.
Passei horas deitado,
olhando para o céu.

Engoli o soluço,
Peguei o resto do cimento no saco,
e empilhei meu primeiro tijolo...

Simplesmente apagou....

Simplesmente apagou.
Não ouvi estouro,
O mundo não parou
Nenhum terremoto,
Não vi o céu cair 
Não teve labaredas de fogo
Nem lavas em rios,
Nem insuportável frio
Com gélidos ventos
Nem tempo fechado e nem temporal
Simplesmente apagou
Não ouvi gritos
Nem risos histéricos
Nenhum anjo veio
Não tive medo nem receio
Não houve nada,
Simplesmente apagou....

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Penso, logo resisto...

Fiquei aqui parado
com medo de tudo
meio cético
meio surdo
Não sei se volto ao começo
ou se recomeço a andar
mas o que me faltou na alma
ganho quando, ao céu, volto a contemplar

Parei meio surdo
meio triste e louco
surto 
em um espaço turvo
mergulho em mim
bem fundo
no lodo, limbo,lixo...
murmuro
Reflito, penso,
logo resisto...

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Mãe-Pátria II


Jovem com olhares cansado marejados

Pele espeça de tanta pancada, voz que se arrasta, falha

Caminhas o caminho pisado, cascalho nos pés descalços.

Andou retirando-se retirante.



Passou por favelas, vielas e o agreste,

Prestes a desistir, com fome, maltratada

Agredida em sua carne e em sua alma

Contando os dias que haverá a frente



Anda lentamente Não há tempo

Suas sementes já brotaram



Um que ficou numa cova rasa

Outro aquecido em suas entranhas

E eu em sua mão Direita calejada

Carregada e carregando



E aquilo que era fé

Virou dor

O que não se pode ter

Matou o amor

Minha mãe pátria suja me esquece numa esquina escura.

O que me sobrou agora

Foram os ratos

Os restos...

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Fixamente inconstante...

O frio que gelava minhas narinas queimava como o fogo
Gelado imóvel e contente.
Fogo que arde e desespera.
De tão gelado aqueço a mente.
Minha mente imóvel e ardente.
Sou semente que não germina
E a morte que renasce...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Canção do Amanhã

Não andava,

Voava.

Olhos cintilantes, farol na noite.

Um brilho desconcertante, ofuscante

Pelo caminho caminhado, pisado.

A brisa sacudia seus cabelos.

Passava o mundo em câmera lenta.

E a brisa foi cessando,

E de fresco foi ficando árido.

Solo cada vez mais quente.

Calmamente estranho

Caminho vazio.

O vulto

O surto

O Insulto
O luto

E ela solto-me a mão,

Levantou os olhos

E desistiu do caminho

Não é normal para quem voa

(Voava aos nossos olhos)

Mas vinha presa,

No fundo do abismo da alma

Não via no espelho a mesma luz.

Preferiu outro caminho. 
Dizendo que voltava amanhã,

Soltou-me a mão e se foi.

Assim vi sua escuridão

Assim dimensionei seu verdadeiro clarão...