segunda-feira, 16 de março de 2015

O Espelho

Eu caminhei num labirinto de espelhos.
Fiquei vagando por anos naquele lugar estranho.
Gritei por várias vezes meu pai, minha mãe mas nada.
Só conseguia ver meus olhos vermelhos.
Os mesmos que eles viram nascer,
E que agora, viam sumir no caminho.
Só senti minhas dores.
Só vi minhas cores.
Não vi nenhum rosto diferente.
Só via a minha face.
Mais ninguém diferente ou com disfarce.
E mesmo que eu me desfaça, o que sobrava era apenas eu.
Pensar em mim,
Buscar para mim.
E só.
Mais ninguém a minha volta.
Nenhum choro o lamento que não seja o meu próprio.
E como embebido no ópio eu seguí.
Preso ao espelho das paredes
Como quem olha sua imagem na água.
Preso em mim,
Neste labirinto sem fim.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A Menina e o Brinquedo.

A menininha corre pela sala imensa de seu palacete.
Vida de viagens, luxo e confetes.
E a menina ri dos pássaros que voam no seu jardim imenso.
E a menina brinca com sua bonecas caras.
E a menina brinca e solta gargalhadas.
A menina ...
Mas algo não está mais certo.
A menina perde seu melhor brinquedo.
A menina se senta e chora.
Faz birra, pirraça, esbraveja.
A menina perdeu seu brinquedo.
Mas logo cedo, ela ganhará outro
E seu brinquedo antigo,
Perderá o sentido...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Carnaval

Era Carnaval e os confetes caiam como lágrimas.
A máxima expressão da alegria, que grita num emaranhado de corações partidos.
E no meio de todas as fantasias estou aqui.
Subindo ladeiras seculáres,
Onde uma curta vivência passa ligeira pelos pensamentos.
Onde as igrejas enfeitadas me convidam a implorar,
Mas a folia não para.
São trompetes, taróis, bumbos,
E eu caminho rindo e mudo,
Contente e confuso.
Um Arlequim chorando sua Colombina e arrancando risos na folia.
Uma imagem lindamente doente.
E o Bloco?
O Bloco não para.
Mais corações partidos estão sambando, sonhando e "livres" de si mesmo.
Será?
Acho que amanhã é quarta-feira de cinzas....

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O Cego

Hoje acordei cego.
Era muito cedo e a escuridão me trazia o medo.
Medo de voltar a enxergar.
Mas os conflitos que me trazem a escuridão?
Viver a ilusão de um chão firme
Ou a realidade de uma vida sobria?
Com peito retalhado decidi adormecer.
Aproveitei a escuridão, a cegueira, meu peito dolorido
E me encolhi.
Olhei para o espelho e não me vi.
Um homem sem rosto, sem corpo e sem rastros...

domingo, 25 de janeiro de 2015

Tempestade

Hoje choveu muito.
E os dias de muito Sol, que ardia a pele, sumiu. 
E chegou a água em trombas- um rio. 
O vento frio, hoje, me vez companhia, com seu assobio. 
A moto pouco acelera.
Gera o temor do tempo impetuoso.
O vento é intenso.
Mas o cantar dos pássaros pela manhã, já nos avisavam do "pior".
Colocar os minutos sobre pressão para que as águas turbulentas não me arraste.
Que não arraste tudo.
E o fundo da alma, estranha a mudança.
A raiva absurda da natureza.
Mas o mundo foi feito a golpes de grandes destruições.
Ou será Construção? Reconstrução?
E o Sol se fez negro no inicio.
O mundo "acabou" e "renasceu".
Mas só se destruiu ou renasceu no entendimento.
Com todo respeito a quem tem medo,
É o simples, comum e inevitável deslocamento.
As plascas Tectônicas que saíram do lugar como já era programado.
A velha novidade da transformação.
A transformação que nos faz tremer.
Que nos traz o medo de que o solo esteja saindo de baixo dos nossos pés,
E não perceber que outros relevos, plantas e animais se colocam diante dos nosso olhos.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vermelho

Vim ao mundo de uma forma tumultuada.
Gritava para me manter vivo, desobedeci minha má sorte,
Mexia meus dedos frágeis para segurar o peito e não sentir fome
Ganhei um nome que, sem querer ou não, reflete o que sou.

Lutei desde cedo com marmita fria
Para que os açoites doessem menos
Chorei muitas vezes alimentando quem ria,
Partido em muitas pedaços

Me fiz um, me fiz vários
Tive várias costas para doer
Vários rostos para olhar.
Nasci um , vivi vários

Dei as mãos, caí.
Me levantaram, com a mesma canção.
Meu corpo para muitas pernas
Minhas pernas para vários "eu".


Assim me fiz Romney de sangue vermelho,
De alma vermelha,
De olhos vermelhos,
De foice e martelo.

Hoje estou aqui.
Coração blindado mas continuo a luta
Não me permito cair, 
Não me permito ser pouco
Continuo com sangue aquecido
Esquecido nessa guerra sem fim.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uirapuru

O amor...
Bicho estranho louco desvairado,
Se finge de santo mas é puro pecado.
Se esconde no meio do mato,
Olha, assunta e muda a forma - formato.
Você corre, o cerca.
Ele pula, voa e as vezes parece rir.
Mas a gente incansável corre de novo, pula com o racional envolto - entorno de nós e nada.
Fico escondido num canto a espreita e ele me bica por trás e me faz sentir essa cruel dor.
Sento e desanimo
E a navalha com seu fio fica enterrado na alma.
Foi-se embora a astucia.
E esse bicho estranho que achei que já era extinto existiu
Como um Uirapuru
O bicho do céu azul que canta
No mato para que o resto se cale 
E deixe que as plantas do mato exale seu perfume.
Mas ainda fico na espreita a procura-lo...